Fazer Arte e a velocidade desenfreada das redes sociais

Como fazer e consumir arte no seu tempo e dar conta do ritmo e da pressa mercadológica das redes?

Não pretendo me delongar neste texto. Não mais do que delongo no geral. Assim, no geral, minha arte e as coisas que eu crio são assim, delongadas. Compridas, lerdas, lentas, calmas. Eu trabalho com pintura e escrita analógica e para quem não está familiarizado com o termo, isso significa que toda a minha arte (seja um desenho, ilustração ou um escrito) é feito, antes de tudo, com materiais analógicos, palpáveis. E tinta e papel são duas coisas com temperamento, exigem que se tenha tato e sensibilidade.

Não que um artista digital não tenha tato ou sensibilidade. Claro que isso não é uma verdade. Tem mais a ver com o fato de que eu, Pedro Balduino, particularmente, sinto que meus processos criativos possuem uma relação íntima com materiais analógicos.

Meus processos envolvem coisas como: esperar secar (o que envolve uma relação direta com o clima: dias quentes exigem mais agilidade com tinta acrílica. Enquanto dias frios são ótimos para pintura com guache e até nanquim pois elas demoram mais para secar e isso favorece alguns aspectos da imagem e da técnica)… ou passar vários dias sem pegar no lápis para poder decantar uma ideia.

Ócio criativo é uma das partes mais importantes do meu processo. E, ao contrário do senso comum e preconceituoso, ócio criativo não tem nada a ver com “ficar sentando de pernas pro ar, esperando vir uma ideia”. Tem a ver com o fato de que ideias apressadas podem ter a sorte de sair boas. Mas ideias decantadas… pacientes e sublimadas… costumam ser as minhas melhores.

Arte que demora

Mas como fazer arte que demora em tempos onde tudo que a gente lê sobre redes sociais e seus usuários é o fato de que a gente consome conteúdo cada vez mais aceleradamente? Uma pintura que levou semanas ou até mesmo ligeiros dias ou horas para ser concluída, passa pelo feed do instagram com uma velocidade média de alguns segundos e a “vida útil” de uma postagem pode variar entre 21h em algumas redes ou até 18 minutos em outras.

Em outros tempos, a arte de rua e as galerias de arte poderiam ser soluções para consumir arte com mais calma. Sair de casa, passar belos, inteiros e compridos três minutos na frente de uma tela ou de um grafitti. Mas e nestes tempos em que sair de casa é perigoso (há um vírus mortal lá fora, ok?)? Tempos em que os conteúdos estão cada vez mais necessariamente virtuais. Como consumir e fazer arte com menos aperreio? E, novamente, batendo nesta tecla: isso não é uma questão apenas para o artista analógico. O artista digital também passa horas pintando (mesmo que as relações táteis com o material sejam diferentes).

Vamos reconfigurar esta perspectiva, certo? O lance aqui não é sobre tempo! É sobre capacidade de atenção (e seu potencial lucrativo). É sobre como a velocidade das redes sociais nos fornece uma quantidade cada vez maior de informações, produtos e conteúdos (massa, legal!) mas como é muito vantajoso para as empresas que faturam com isso que a gente consuma cada vez mais rápido! Para que a gente passe para o próximo conteúdo e consuma o próximo produto o quanto antes! E a Arte pode sim, se beneficiar disso. Desta velocidade.

Mas nem toda Arte. E sabe o porquê? Pois cada artista é único e tem um processo único e histórias singulares. E objetivos singulares com seu trabalho, também. Tem artista que quer que você compre, antes de tudo. E tem outros que até querem que você compre (pois artista precisar pagar contas também, né?), mas que também se preocupa que você sinta algo. Eu me vejo, modestamente, nesta segunda janela. E se eu tiver como sugerir a melhor forma de consumir a minha arte, o conteúdo que eu crio, eu diria a todos o seguinte: sinta. Olhe com atenção, tome seu tempo (o SEU tempo, não o do instagram). Consuma do seu jeito, converse, troque uma ideia do seu jeito. Se for elogiar ou compartilhar, elogie e compartilhe, mas não apenas para melhorar meu engajamento e sim para me motivar a continuar trabalhando e para se conectar com outras pessoas através disso.

Sim, mas e aí? Fazemos o quê?

A real é que eu tô só desabafando e também não tenho ideia do que fazer com isso. Acho importante ficarmos atentos, no entanto. Eu tive um amigo que me dizia o seguinte: “se for meter seus pés numa piscina de merda, saiba pelo menos a procedência da merda”. Temos que estar atentos na merda em que estamos afundados.

Mas eu também não quero combater e derrotar as grandes empresas que monopolizam os conteúdos de informação mundiais e transformam tudo isso em produto. Não tenho nem roupa para essa briga. A questão é que eu assumi que não adianta botar a minha carroça na frente dos meus bois, abraçar um mundo sem poder carregar. Então eu tô com essa ideia de dar uma desacelerada. Por isso, inclusive, voltei com o blog.

E já percebi que não estou sozinho nessa. Já troquei uma ideia com alguns seguidores e apoiadores do meu trabalho e estamos conversando sobre uma proposta, um teste, na real, que é o seguinte: uma newsletter semanal por e-mail. Menos, muitas vezes, é mais, isso a gente sabe. E eu tô muito motivado com a possibilidade desta newsletter pois a ideia é que ela seja uma forma de alcançar as pessoas que realmente querem tirar um tempinho das suas vidas pra consumir a minha arte, assim, do jeitinho que ela é: comprida, lerda, lenta e calma.

Se você acha que tudo isso que eu escrevi aqui faz algum sentido e tem qualquer interesse por receber atualizações da minha arte, fique à vontade para se cadastrar nesta lista de e-mails, vou deixar o formulário de inscrição da newsletter no final desta postagem, logo ali.

Se você consome arte na internet e tem um(a) artista que você gosta muito (outra pessoa, não eu, ok?) e essa pessoa estiver passando por apuros para tentar acompanhar a velocidade desenfreada das redes sociais (postando arte só para manter uma frequência no feed, desesperando-se por engajamento ou ficando ansioso com isso) eu sugiro você tirar sempre um tempinho para comentar ou mandar uma mensagem privada para essa pessoa criadora e dizer que você gosta muito do que ela faz e que ela pode ficar tranquila com a pressa pois você vai sempre apoiá-la, mesmo que ela precise tirar uma semana de férias (ou de ócio criativo). Isso também é apoiar a arte.

E se você é artista e tem problemas com isso, como eu… te convido a testar coisas novas e mais lentas, mais calmas… se delongar mais. E, falando nisso…

Enfim, me delonguei.

Mas não importa. Eu mesmo não tô com pressa. Você tá?

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