Uma questão referencial

Observando a relação entre estilos de vida e estilos artísticos.

Sempre que me pego pensando sobre a importância dos processos criativos para quem faz Arte ou trabalha com criatividade, penso sobre como estes processos são, também, formas de lidar com as mais variadas condições da vida. Veja bem, sempre que dou aula ou converso informalmente sobre desenvolvimento de estilo, há esta instrução inicial que envolve a seguinte atividade: copiar. Sim, apesar de tanta polêmica acerca do termo copiar, é importante separar a cópia (como ferramenta de aprendizado) do plágio ou apropriação injusta (muitas vezes criminosa) do trabalho de outras pessoas.

Copiar deve ser, geneticamente, um processo de compreender o seguinte: quem são os artistas que te tocam? Assim, copiar o trabalho seus trabalhos é tentar chegar próximo dos resultados que eles alcançam, um exercício de encontrar caminhos semelhantes para resolução de problemas. Em algum momento a cópia deve ser deixada de lado e o estilo pessoal vai tomando forma, se apresentando como uma grande vitamina feita apenas do que foi refinado neste caminho de conhecer suas referências.

Comumente, quando fazemos isto, de observar um artista que gostamos de perto, vamos além da simples observação do seu trabalho e acabamos nos encantando com aspectos de sua vida pessoal, aqueles aspectos que eles permitem ou acabam não tendo controle de se deixar apresentar ao mundo. E nisto, evoluímos nosso foco de observação para uma admiração do estilo de vida para além do estilo artístico.

Martin Scorsese e Fran Lebowitz Still de Faz de conta que NY é uma cidade (Scorsese, 2021)

No começo deste ano, assisti o documentário Faz de conta que NY é uma cidade do Martin Scorsese, disponível na Netflix. O documentário é protagonizado pela excêntrica Fran Lebowitz, uma escritoa admirável que tem na sua forma de escolher palavras (escritas ou faladas) um espelho da sua posição perante a vida. Dona de pontos de vista controversos e um humor ácido, ela é autora da seguinte citação:

First of all, I am really not a contrarian. It is not my goal, desire or impulse to say or believe something in order to be contrary to what other people say or believe. It turns out, of course, that many of the things I say and believe are contrary to what other people think […]”

“Em primeiro lugar, eu realmente não sou ‘do contra’. Não é meu objetivo, desejo ou impulso dizer ou acreditar em algo a fim de ser contrário ao que outras pessoas dizem ou acreditam. É claro que muitas das coisas que digo e acredito são contrárias ao que as outras pessoas pensam […] ”

Acontece que a profissão da Fran Lebowitz é escritora. E ela não escreve um livro sequer há mais de vinte anos. Segundo entrevistas, ela está no processo de escrita de um novo trabalho desde os anos 90, mas simplesmente não consegue terminá-lo por “se importar demais com as palavras”. Nos últimos trinta anos, parte da sua renda, grande parcela do seu ganha-pão de artista se deve ao fato de que ela fala muito. E as pessoas amam ouvi-la falando em palestras.

Isto é um processo criativo. Ela fala enquanto termina (ou não) este trabalho. E este trabalho (um livro novo?) é tão importante para ela quanto sua própria vida; sua opinião acerca do mundo e das coisas, são todas exposições de um grande processo criativo da vida e da Arte. E assim, sua Arte é o seu processo e o novo livro da Fran Lebowitz deixa de ser, em si, o que esperamos dela. E mesmo perante toda esta exposição, ela ainda é uma pessoa que se considera introspectiva. Sabemos de muito do que ela acredita sobre o mundo mas nem tanto assim sobre sua vida pessoal. Há um tipo de equilíbrio que invejo e admiro bastante nesta dinâmica.

Um tempo desses fiz este retrato da Fran. Ando gostando de desenhar retratos à lápis de pessoas e artistas que admiro bastante. É minha forma de dar rosto a estas referências, meu processo de refinar o que, nelas, me toca.

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