Está solta a áspera primavera

Este é um blog sobre Arte, confere? No caso, sobre as artes que faço e as coisas que penso e que acabo escrevendo ao longo dos tempos. Para ser mais preciso: ao longo dos grandes intervalos de tempo que passo sem atualizar isso aqui, com o juízo duro feito o congelador da minha geladeira de segunda mão.

Eu sou um artista que só sabe fazer uma coisa de cada vez e que, infelizmente, criou um ridículo amontoado de rituais que mais me atrapalham do que ajudam. Eu não sei pegar num lápis sem estar de dentes escovados. Eu jamais começo uma pintura se tiver visita em casa. Um monte de manias assim, condensadas.

O ponto é que este funcionamento mental no qual eu me enclausurei nos últimos anos tem me levado a refletir sobre o passado e o futuro de formas capitulares, engavetadas. Sempre tive uma memória capitular e associo eventos que não possuem relação direta entre si na tentativa de criar sentidos cronológicos. Exemplos:

  • 2001 – Me mudei para o Rio e estreou Harry Potter e A Pedra Filosofal;
  • 2005 – Meu pai morreu e comecei a trabalhar com pintura;
  • 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez ganhou o Oscar, último ano do ensino médio, transei muito;
  • 2016 – Me mudei para Belo Horizonte e li Arte e ciência de roubar galinhas do João Ubaldo.

Pronto, era aqui que queria chegar. Uma das coisas que me pegou neste livro foi a narrativa centrada nas vivências do jovem João Ubaldo na Ilha de Itaparica. Morei em Salvador em 1997 e a gente visitava Itaparica de vez em quando, daí criei esta identificação. Noventa e sete também foi o ano que li meu primeiro livro de gente grande: As mais belas histórias da Antiguidade Clássica, Gustav Schwabb (havia umas esculturas peladas fazendo estripulia na capa e meu padrasto, na época, achou ideal encapar o livro inteiro com uma luva artesanal de papel ofício e fita durex pra me “proteger das obscenidades”, como se eu não soubesse ler).

Se relacionando com a Antiguidade Clássica e também com Itaparica, a última crônica de Arte e ciência de roubar galinhas é sobre o inverno naquela ilha. É toda uma linha de raciocínio a partir de um trecho de Horácio, poeta romano, que diz assim: solvitur acris hiems, algo parecido com “Está solto o áspero inverno”. É poesia que fala sobre aquele arrepio que sobe pelas costas quando a gente vê umas nuvens de chuva no horizonte e sabe que o inverno se aproxima e, junto dele, todo tipo de assombro, frio, desânimo e entrave.

Curiosidade: é deste mesmo trecho que George R.R. Martin extrai o seu famoso “the winter is coming” que, em Game of Thrones, nos diz sobre o prenúncio de tempos difíceis (e também sobre um exército de zumbis congelados).


Tem feito muito frio nos últimos anos. Muito frio, meu coração tá uma pedra. E do ano passado para cá… não tem como capitular 2020 de uma forma individual. O entrave foi geral, todo mundo sentiu a frieira. Particularmente, ando confuso do juízo e não estou sabendo muito bem simbolizar as coisas, mas posso afirmar com clareza que os últimos dois anos destruíram o que eu ainda tinha de saúde mental e um bom bocado da saúde física.

Vacinei, porra!

A boa notícia é que na última segunda-feira, me vacinei contra o covid. Um marco relevante para associar a este capítulo 2021. E com a vacina veio o resto de um dia inteiro sentindo o quentinho no braço, uma sensação de quase-febre. Esquentou, como que o clima se preparando para mudar de estação. Tem sido inevitável respirar sem que entre pelos brônquios esse fôlego de que tempos melhores se aproximam.

Após o inverno, a primavera. Novos tempos? Nova era? Odeio profetas. Certeza é que vai ser difícil se livrar de tanta cicatriz, a folhagem do juízo ainda tá toda queimada da geada. Qualquer coisa que floresça deste inverno difícil, vai desabrochar com aspereza, capenga e piegas como aquelas plantas que nascem no meio dos paralelepípedos e que a gente tem mania de bater palma como exemplo de meritocracia vegetal.

Mas vai desabrochar. A gente merece o destino que nos espera.

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